A crise da dívida da Venezuela se intensifica com a queda de Nicolás Maduro. Entenda como a situação se agravou e o que pode acontecer a seguir!
A queda do presidente Nicolás Maduro trouxe à tona a crise da dívida da Venezuela, um dos maiores calotes soberanos não resolvidos do mundo. Após anos de crise econômica e sanções dos EUA, o país ficou isolado dos mercados de capitais internacionais.
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A dívida, emitida pelo governo e pela estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), acumulou juros e reivindicações legais, elevando o passivo externo muito além do valor nominal dos títulos originais.
A dívida venezuelana em situação de inadimplência ganhou valor desde que Donald Trump assumiu a presidência dos EUA em janeiro de 2025, com especuladores apostando em uma possível mudança política. A seguir, uma análise sobre as entidades credoras, o que pode ser incluído em uma reestruturação e quem pode buscar cobranças em Caracas.
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Estima-se que a Venezuela possua cerca de US$ 60 bilhões em títulos inadimplentes. Contudo, a dívida externa total, que inclui obrigações com a PDVSA, empréstimos bilaterais e indenizações arbitrais, varia entre US$ 150 bilhões e US$ 170 bilhões, dependendo da contabilização de juros acumulados e sentenças judiciais.
O FMI projeta que o PIB nominal da Venezuela atinja aproximadamente US$ 82,8 bilhões até 2025, resultando em uma relação dívida/PIB entre 180% e 200%.
A PDVSA, com sede em Caracas, controla a Citgo, um ativo que se tornou alvo de ações judiciais por credores que buscam recuperar seu valor. Tribunais dos EUA confirmaram indenizações bilionárias para empresas como ConocoPhillips e Crystallex, permitindo que esses credores busquem ativos venezuelanos para compensação.
Um tribunal de Delaware registrou cerca de US$ 19 bilhões em reivindicações relacionadas à PDV Holding, controladora da Citgo, um valor que supera o total estimado dos ativos da empresa.
As sanções e a proibição da negociação da dívida dificultaram o rastreamento da propriedade. A maioria dos credores comerciais é composta por detentores de títulos internacionais, incluindo investidores especializados em dívidas em dificuldades, conhecidos como “fundos abutres”.
Além disso, a Venezuela possui credores bilaterais, principalmente a China e a Rússia, que concederam empréstimos tanto a Maduro quanto ao ex-presidente Hugo Chávez.
Os números exatos são difíceis de verificar, pois a Venezuela não divulga dados abrangentes sobre sua dívida há anos. A complexidade das reivindicações e processos judiciais sugere que uma reestruturação formal será um desafio demorado.
Uma reestruturação da dívida soberana poderia ser apoiada por um programa do FMI que estabeleça metas fiscais e premissas de sustentabilidade da dívida. No entanto, a Venezuela não realiza consultas com o FMI há quase duas décadas e está excluída do financiamento da instituição.
As sanções dos EUA também dificultam a emissão ou reestruturação da dívida sem licenças explícitas do Tesouro dos EUA.
O futuro das sanções permanece incerto. O presidente Donald Trump declarou que os EUA “governarão” a nação produtora de petróleo, o que pode impactar ainda mais a situação.
Os títulos venezuelanos renderam cerca de 95% em relação ao índice em 2025, sendo negociados atualmente entre 27 e 32 centavos de dólar. Em novembro, analistas do Citigroup estimaram que um corte no principal de pelo menos 50% seria necessário para restaurar a sustentabilidade da dívida.
O Citi sugere que a Venezuela poderia oferecer um título de 20 anos com cupom de 4,4% e um título de cupom zero de 10 anos para compensar juros atrasados.
Outros investidores, como a Aberdeen Investments, inicialmente previam recuperações de cerca de 25 centavos de dólar, mas acreditam que cenários políticos mais favoráveis poderiam elevar esse valor para entre 30 e 35 centavos, dependendo da estrutura do acordo e do uso de instrumentos atrelados ao petróleo.
As projeções de recuperação econômica contrastam com um cenário desolador. Desde 2013, a economia venezuelana encolheu drasticamente, com a produção de petróleo em queda, inflação alta e aumento da pobreza. Embora a produção tenha se estabilizado, os preços globais mais baixos do petróleo limitam a receita, dificultando o pagamento da dívida sem uma reestruturação significativa.
O recente bloqueio americano a petroleiros sancionados agravou ainda mais a situação. Trump afirmou que empresas petrolíferas americanas estão preparadas para entrar na Venezuela e investir na restauração da produção, mas os detalhes e prazos permanecem incertos.
Atualmente, a Chevron é a única grande empresa americana operando nos campos de petróleo venezuelanos.
Autor(a):
Gabriel é economista e jornalista, trazendo análises claras sobre mercados financeiros, empreendedorismo e políticas econômicas. Sua habilidade de prever tendências e explicar dados complexos o torna referência para quem busca entender o mundo dos negócios.