Cinquenta anos após a morte de JK, relatório contesta versão oficial e aponta perseguição política

O novo relatório da CEMDP reabre o debate sobre a morte de JK, apontando a responsabilidade do Estado e exigindo a retificação das certidões de óbito.

Montagem referente ao acidente de JK

Cinquenta anos após a morte de Juscelino Kubitschek, ocorrida em 22 de agosto de 1976, um novo relatório reavaliou as circunstâncias do episódio. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), ligada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, aprovou em maio de 2026 um documento que contesta a versão oficial de que o ex – presidente teria falecido em um acidente de trânsito.

De acordo com a nova análise, JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, perderam a vida devido à perseguição política imposta pela ditadura militar.

O acidente fatal ocorreu na Rodovia Presidente Dutra, em Resende (RJ), quando o Opala em que viajavam invadiu a pista contrária e colidiu frontalmente com um caminhão. Na época, a narrativa oficial atribuía as mortes a um simples acidente. O relatório foi elaborado pela relatora Maria Cecília de Oliveira Adão e apresenta mais de 1,2 mil páginas de provas e documentos que sustentam esta nova conclusão.

Conclusões do Relatório

A CEMDP concluiu que a morte de Juscelino foi “não natural, violenta”, resultante da ação do Estado brasileiro no contexto da repressão sistemática contra dissidentes políticos. Com base nisso, a comissão determinou a retificação das certidões de óbito de Juscelino Kubitschek e Geraldo Ribeiro, conforme a Resolução 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ.

Assim, a CEMDP passou a constar como atestante desses registros.

O processo foi iniciado por Gilberto Natalini, ex – presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e Ivo Patarra, após a reinstalação da comissão em 2024. O relatório recebeu aprovação unânime pelo plenário da CEMDP em 29 de maio de 2026, com seis votos favoráveis e uma abstenção.

A apresentação pública ocorreu em coletiva realizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo.

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Revisão da Versão Oficial

A versão original defendida pela ditadura alegava que o Opala havia sido atingido por um ônibus da Viação Cometa durante uma tentativa de ultrapassagem. Essa narrativa também foi apoiada por uma comissão externa da Câmara dos Deputados em 2001 e pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2014.

Naquele momento, a CNV não encontrou evidências materiais que sugerissem homicídio doloso contra Juscelino e seu motorista.

No entanto, o novo relatório contraria essa interpretação e se alinha às conclusões já apresentadas por comissões estaduais de verdade. Ele aponta fraudes na investigação original. O laudo pericial foi realizado pelo Instituto Carlos Éboli sob supervisão de Roberto Villarinho e Sérgio Leite — os mesmos responsáveis pela análise do caso da estilista Zuzu Angel.

Irregularidades na Investigação

A investigação original levantou suspeitas sérias quanto à sua integridade. Nenhum dos passageiros do ônibus confirmou a colisão com o Opala. O motorista do coletivo foi absolvido após julgamento unânime do II Tribunal de Alçada do Rio de Janeiro.

O relatório indica tentativas de suborno para que ele assumisse responsabilidade pelo acidente e menciona alterações na posição dos veículos antes da perícia.

Além disso, não foram realizados exames toxicológicos nos corpos das vítimas, impossibilitando verificar a hipótese de envenenamento. Quando o caso foi reaberto em 1996, constatou – se que o número do motor do veículo analisado não correspondia ao carro utilizado por Geraldo Ribeiro.

Contexto Político

O documento também destaca o contexto político no qual ocorreu a morte de JK. Após ser cassado pelo golpe militar de 1964, ele enfrentou vigilância intensa, interrogatórios e campanhas difamatórias. Em fevereiro daquele ano, recebeu aviso sobre riscos à sua segurança por parte do empresário Roberto Marinho.

No diário pessoal, Juscelino registrou suas preocupações com movimentos hostis contra sua figura política. A morte dele é ainda vinculada à Operação Condor; documentos revelam comunicação entre autoridades chilenas e brasileiras mencionando – o como potencial alvo devido ao seu fortalecimento político.

Aviso Prévio sobre o Acidente

Curiosamente, apenas quinze dias antes do acidente fatal, jornais noticiaram erroneamente sua morte na estrada Rio – São Paulo — uma informação rapidamente desmentida. Ao receber confirmação sobre sua verdadeira morte, Sarah Kubitschek expressou desconfiança: “este ano já mataram meu marido duas vezes”.

Na manhã fatídica do acidente, Juscelino parou no Hotel Fazenda Villa – Forte antes de seguir viagem. O local estava vazio naquele domingo e ele ficou sozinho por cerca de 90 minutos. Ao pegar novamente o volante após essa parada prolongada, seu motorista notou algo estranho nas condições do carro antes da colisão mortal.

Decisão da CEMDP

A CEMDP se baseou no princípio jurídico in dubio pro victima para fundamentar sua decisão; esse princípio inverte o ônus da prova em favor das vítimas do regime militar. Assim sendo, cabe ao Estado comprovar as circunstâncias das mortes ocorridas sob perseguição política.

A atuação da comissão é administrativa e voltada para reparação histórica; ela não busca condenações criminais individuais. Com essa nova deliberação aprovada, Juscelino Kubitschek passa a ser oficialmente reconhecido como vítima das perseguições políticas daquela época.

A decisão será comunicada à família enquanto se inicia o processo para retificação das certidões.