Carnaval: Uma Celebração de Resgate e Resistência
O sociólogo e especialista em cultura popular, Tadeu Kaçula, oferece uma análise profunda sobre o Carnaval, indo muito além da folia e da festa. Em entrevista exclusiva para a Rádio de Fato, ele explora a conexão intrínseca entre o Carnaval, a ancestralidade negra e o processo de reumanização da população afro-diaspórica no Brasil.
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“Quando pensamos no Carnaval, estamos falando de um processo em que a comunidade teve que desenvolver uma ideia resiliente de desarticular a desumanização e reativar a nossa subjetividade”, afirma Kaçula. “A subjetividade negra está conectada à herança que os nossos ancestrais deixaram como elemento fundamental de nos conhecermos e reconhecermos a nossa história.”
As Rodas Sagradas da Resistência
Kaçula utiliza a filosofia dos povos bantos para ilustrar a interconexão das diversas expressões culturais negras no Brasil. Inspirado nos estudos do professor Juarez Xavier da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ele destaca o conceito das “três rodas sagradas do universo negro brasileiro”: os candomblés, as capoeiras e os sambas. “Sempre no plural, porque somos diversos. Dentro da filosofia banto, nada está desconectado. Essas três rodas são estruturantes quando a gente pensa no Carnaval”, explica.
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Branqueamento e a Desconexão com as Raízes
Um ponto central da análise de Kaçula é o fenômeno do branqueamento, que vai além da simples presença de pessoas brancas em espaços culturais negros. “A nossa questão não é ter corpos brancos nesses espaços. A nossa orientação é afro-orientada, não ocidental. Nossa dinâmica é de acolhimento, de aquilombamento. Outros grupos são bem-vindos”, explica. Ele critica a tendência de desconstruir as tradições, afastando-se das matrizes religiosas e africanas.
O Papel das Escolas de Samba na Memória
Kaçula ressalta que as escolas de samba sempre desempenharam um papel didático fundamental, especialmente diante de uma história oficial que ignora ou distorce a contribuição dos povos negros e originários. “A história do Brasil nos livros didáticos é contada pela metade, de maneira deturpada, mentirosa. A escola de samba cumpre o papel de contar a nossa verdade”, resume.
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Um Apelo à Preservação da Tradição
Com o retorno de temas afrocentrados e enredos que exaltam a cultura negra, Kaçula vê uma recuperação desse papel político e educacional, que “as escolas voltam a ser lugar de ação política, de reletramento da verdadeira história da nossa população”. Ao final, o sociólogo faz um apelo poético e político: “O que a gente pede é que se pise devagar nos nossos chãos ancestrais. Nossa tradição precisa ser mantida. Quando a gente participa de outras culturas, a gente sabe chegar respeitando. O que queremos é o mesmo: respeito à nossa identidade.”
“Tentar transformar nossa tradição em pensamento colonial, capitalista, em uma cultura que não é nossa, é um desrespeito aos nossos ancestrais e à contribuição que o povo negro deu e continua dando ao Brasil”, conclui.
