Carnaval Carioca: Uma Celebração de Identidade e Ancestralidade
O carnaval carioca de 2026 está passando por uma transformação profunda, impulsionada tanto pela evolução tecnológica quanto pela crescente valorização da identidade negra e da ancestralidade africana. A análise sobre o tema é feita pelo comunicador, historiador e comentarista de carnaval, Paulo Alcantara, da Rádio Brasil de Fato.
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A Tecnologia a Serviço do Espectáculo
Alcantara descreve o processo com detalhes: “Tudo começou com o ensaio técnico, agora calculado milimetricamente, com roleta e carimbo para controle de entrada e saída”. A inovação se estende ao uso da iluminação cênica, que, pela terceira vez consecutiva, desempenha um papel fundamental no espetáculo.
Diferente da luz branca intensa que antes dominava a avenida, a nova iluminação é cuidadosamente planejada, focando nos detalhes das fantasias fluorescentes e criando efeitos visuais que elevam o show a um novo patamar. “Esse efeito, sem dúvida, contribui para o aspecto comercial do evento”, avalia o especialista.
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A Afirmação da Identidade Negra e dos Orixás
No entanto, a maior transformação, segundo Alcantara, reside no conteúdo dos enredos. “Antes, havia um receio em abordar temas relacionados a Exu. Muitas pessoas, influenciadas por informações equivocadas de outras religiões, confundiam Exu com o diabo.
Essa percepção estava errada: Exu é o orixá da comunicação”, explica. A mudança começou com a Grande Rio, campeã em 2022 com um enredo sobre Exu, abrindo caminho para outras escolas que adotaram temas afrocentrados. “Vimos Exu presente em quase todos os enredos”, lembra Alcantara.
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Representações e Evolução das Imagens
Ao longo do tempo, a representação dos orixás na avenida passou por um processo de “embranquecimento”, onde imagens antes consideradas “brancas” e “siliconadas”, como a de Iemanjá, foram reavaliadas e adaptadas para uma representação mais autêntica. “Hoje, sabemos que ela não é assim”, destaca Alcantara.
Temas Afrocentrados e Personalidades da Cultura Popular
Atualmente, as escolas buscam homenagear personalidades negras e a cultura popular. A Beija-Flor de Nilópolis, por exemplo, homenageou Laíla e Joãozinho Trinta no último carnaval. Este ano, a Mocidade homenageia Rita Lee, a Imperatriz Leopoldinense celebra Ney Matogrosso, a Niterói exalta o presidente Lula, e a Viradouro presta tributo ao mestre Ciça, um dos mais premiados diretores de bateria. “Os quatro melhores sambas-enredo do Rio de Janeiro, na minha opinião, são: Beija-Flor, falando do ‘bem-bé do mercado’, que é um candomblé aberto; a Jucá, com Carolina Maria de Jesus, autora de ‘Quarto de Despejo’; a Vila Isabel, homenageando um grande artista da belle époque carioca; e uma escola que fala sobre Ifá, cultura caribenha.
São enredos que nos conectam com nossa ancestralidade”, enumera Alcantara.
Raízes e a Ancestralidade Matriarcal
Para Alcantara, a profusão de temas afrocentrados não é um mero modismo, mas sim um resgate histórico. “Esses grêmios recreativos surgiram nos morros. Antes de serem escolas, eram locais de apoio, assistência, onde se aprendia capoeira, jongo, onde ficavam as curandeiras, as benzedeiras.
Nossa ancestralidade é matriarcal”, afirma. Ele lembra que o Brasil tem 56% de população negra e mestiça.
A Importância da Conhecimento
Rosa Magalhães, a maior campeã da Sapucaí, está sendo homenageada pelo Salgueiro. Ela trouxe muita França, muito rococó, histórias de imperadores europeus. Por que não conhecermos a corte africana? Tá na hora da gente conhecer a nossa história, a nossa trajetória e de onde viemos. África não é um país, é um continente.
Não é tudo a mesma coisa.
