Caminhada do Silêncio chocou São Paulo: memória e luta contra a ditadura! Centenas se uniram para homenagear vítimas da tortura e desaparecimentos políticos. Famílias e movimentos pedem justiça e expõem falhas na busca pela verdade
Em um dia marcado pela memória e pela luta contra o autoritarismo, centenas de pessoas se reuniram em São Paulo para participar da Caminhada do Silêncio. O evento, que ocorre anualmente, começou na Rua Tutóia, local que abrigou o antigo destacamento do DOI-Codi, um dos principais centros de tortura do Brasil durante o regime militar.
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A manifestação, oficialmente reconhecida pela capital paulista, reuniu familiares de vítimas políticas, movimentos sociais e defensores da democracia.
A iniciativa, que se estendeu até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, próximo ao Parque Ibirapuera, busca aproximar o passado da realidade atual. Lorrane Rodrigues, coordenadora do Instituto Vladimir Herzog, destacou que a mobilização visa expor as limitações na implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade, que apontam para a necessidade de avançar na busca por memória, verdade e justiça.
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A organização ressalta que, apesar de algumas medidas terem sido tomadas, o progresso ainda é insuficiente para atender às demandas da sociedade.
Rogério Sotilli, também diretor do Instituto Vladimir Herzog, enfatizou a importância de retomar o sentimento que originou a manifestação, especialmente diante de tentativas de apagar a história e de ataques contra o Estado Democrático de Direito, como os ocorridos em janeiro de 2023.
A caminhada se tornou um símbolo de resistência contra a violência de Estado, reafirmando o compromisso com a defesa da democracia e a necessidade de nunca esquecer os crimes cometidos durante o período da ditadura militar.
Durante o percurso, os participantes abordaram questões como a possibilidade de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos de crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres, defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O historiador César Novelli, do Núcleo Memória, ressaltou que a mobilização vincula a memória do regime militar às questões contemporâneas, evidenciando que a violência de Estado ainda persiste em alguns setores da sociedade. A marcha, que passou por locais como o Círculo Militar e o Comando do Sudeste, demonstra a persistência da memória e a importância de resistir à tentativa de silenciamento da história.
Ao final da atividade, os organizadores realizaram a leitura de um manifesto, descrevendo o silêncio dos participantes como uma forma de presença e resistência contra o esquecimento. O documento enfatiza a necessidade de lutar por memória, verdade e justiça, e de responsabilizar os responsáveis pelos crimes cometidos.
A Caminhada do Silêncio se tornou um ato contínuo, reafirmando o compromisso de nunca permitir que a violência de Estado se repita e de defender a democracia com unhas e dentes.
Autor(a):
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.