Cacique Eloir Oliveira Denuncia Dívida Histórica da Sociedade Brasileira
Em um momento crucial, durante as celebrações pelos 400 anos das reduções jesuíticas, o cacique Eloir Oliveira, líder da comunidade Nhe’engatu de Viamão (RS), trouxe uma perspectiva singular ao evento. A fala do líder indígena, proferida no Santuário do Caaró, em Caibaté (RS), na terça-feira (17), ressaltou a necessidade de um reconhecimento mais profundo da história dos povos originários no Brasil.
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Oliveira criticou a forma como a história indígena é frequentemente retratada, enfatizando que muitas vezes os povos originários são relegados a papéis secundários em narrativas construídas por não indígenas. Ele defendeu que o reconhecimento da existência e do protagonismo dos Guarani é fundamental para reparar uma dívida histórica não reparada pelo Estado brasileiro.
A importância do momento foi reforçada pela necessidade de garantir direitos concretos nas áreas de educação, habitação, agricultura e, principalmente, na demarcação de terras.
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Críticas à Celebração e à Realidade Indígena
O cacique destacou que as comemorações oficiais das missões não devem se limitar a um gesto simbólico ou religioso. Ele ressaltou a necessidade de reconhecer o período de confinamento e desestruturação cultural sofrido pelos Guarani, que antes contavam com uma população de entre 30 mil e 40 mil indivíduos no território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul.
Atualmente, a população gira em torno de pouco mais de 4 mil pessoas, um reflexo da violência colonial.
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Investimentos e Desigualdade Social
Oliveira também direcionou críticas à política de investimentos do governo do estado na região das Missões, apontando para uma disparidade entre os recursos destinados a obras de infraestrutura e iniciativas ligadas ao turismo histórico e os recursos insuficientes destinados às comunidades indígenas.
Ele mencionou um caso em que um repasse destinado à construção de uma estátua foi redirecionado para uma aldeia após articulação local, evidenciando a necessidade de políticas permanentes e efetivas.
Reivindicações e Desafios
Apenas sete das 65 tekoas (aldeias) e territórios Guarani existentes hoje no Rio Grande do Sul estão devidamente demarcados. As demais áreas são compostas por acampamentos, retomadas ou terras cedidas provisoriamente por municípios. O cacique questionou a permanência de famílias indígenas às margens de rodovias e em áreas precárias, mesmo após décadas de reivindicação.
Ele defendeu a possibilidade de o estado ceder terras para abatimento de dívidas com a União como um marco histórico, mas criticou a estratégia do governador de recorrer a processos judiciais para remover as famílias das retomadas.
Respeito ao Território e ao Modo de Vida
O cacique também contestou estigmas associados aos povos indígenas, como a ideia de que “não produzem” ou não contribuem economicamente. Ele explicou que a lógica Guarani “não se baseia na expansão produtiva nos moldes do agronegócio, mas em uma relação de equilíbrio com a natureza”.
A terra é vista como um espaço sagrado de vida coletiva, fornecendo alimento, remédio e abrigo.
Ao concluir sua fala, o líder indígena fez um apelo por reconhecimento cultural e respeito mútuo, lembrando que os povos indígenas foram obrigados a aprender a língua portuguesa e a se adaptar às normas da sociedade envolvente. Ele enfatizou que o objetivo não é brigar como no passado, mas viver em liberdade, reforçando que a memória dos quatrocentos anos não pode ser dissociada das condições atuais das comunidades Guarani.
