Estudo revela como bromélias-tanque epífitas enriquecem o solo da Mata Atlântica, favorecendo o crescimento do jacarandá-branco e a diversidade de plantas
Ao observar um jacarandá-branco, ou caroba (Jacaranda puberula), florescendo na mata de restinga, é natural pensar que essa árvore frondosa não conseguiria sobreviver em um solo tão arenoso. De fato, essa região da Mata Atlântica, próxima ao mar, é caracterizada pela presença de espécies que se desenvolvem em solos ácidos e com poucos nutrientes.
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Um estudo publicado na revista Plant and Soil, realizado por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com apoio da Fapesp, revelou que essa aparente contradição é favorecida por um grupo específico de plantas que habita a copa das árvores: as bromélias-tanque epífitas.
Essas plantas são conhecidas por acumular água entre suas folhas e viver sobre outras plantas.
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Além de armazenar água, as bromélias acumulam detritos, como restos de plantas e animais. Quando os tanques transbordam, os nutrientes desses detritos se dissolvem na água, fertilizando o solo abaixo. Essa área enriquecida em nutrientes favorece o crescimento de plantas que demandam mais nutrientes, como a caroba, em comparação a outras espécies da região.
A relação entre as epífitas e as plantas do solo, até então desconhecida, foi classificada como “interação remota entre plantas”, pois ocorre entre organismos que estão fisicamente distantes. Os pesquisadores descobriram que as plântulas de caroba irrigadas com água de bromélias apresentaram um aumento significativo em nutrientes essenciais, além de produzir quase o dobro de folhas em comparação às irrigadas apenas com água da chuva.
Tháles Pereira, primeiro autor do estudo, destacou que as bromélias podem acumular até 50 mil litros de água por hectare. O extravasamento dessa água cria manchas de solo mais ricas em nutrientes, facilitando o crescimento de plantas com alta demanda nutricional, como a caroba.
O estudo foi parte de três projetos apoiados pela Fapesp, coordenados por Gustavo Quevedo Romero, professor do IB-Unicamp.
Romero enfatizou que as bromélias-tanque epífitas desempenham um papel ecológico crucial, não apenas para as plantas da copa, mas também para as comunidades do solo. Elas abrigam ecossistemas completos e apresentam grande plasticidade fenotípica, o que as torna importantes facilitadoras no ambiente.
O estudo ressalta a necessidade de conservar essas plantas, pois sua diminuição pode levar a perdas em cascata de espécies e funções ecológicas.
Em um estudo anterior, os pesquisadores observaram que a água das bromélias influencia a diversidade de plantas no solo abaixo delas. Algumas espécies da mata de restinga, adaptadas à escassez de nutrientes, podem ter seu crescimento reduzido ao receberem um pulso de nutrientes, possivelmente devido à intoxicação por excesso.
Apesar disso, as áreas irrigadas pelas bromélias representam uma fração pequena do total. A caroba, por exemplo, compõe cerca de 5% das plantas na mata de restinga analisada no Núcleo Picinguaba, em Ubatuba (SP). A água rica em nutrientes das bromélias, embora reduza a presença de algumas espécies, contribui para a diversidade funcional do sistema, favorecendo aquelas que não conseguiriam prosperar em outras partes da floresta.
No estudo atual, o grupo buscou isolar o efeito fertilizador da água das bromélias, eliminando outros fatores que poderiam influenciar o crescimento das plantas. Para isso, coletaram água de bromélias e água da chuva, que foram congeladas e utilizadas para irrigar mudas jovens de caroba em uma casa de vegetação em Campinas.
Em algumas bromélias, foram adicionadas folhas de pitanga enriquecidas com um tipo de nitrogênio raro, permitindo rastrear a transferência de nutrientes. Os resultados mostraram que a água acumulada nas bromélias continha concentrações significativamente maiores de nutrientes em comparação à água da chuva.
O pesquisador agora investiga o papel das bromélias na diversidade e funcionamento das comunidades microbianas do solo, com apoio de uma bolsa de estágio na Pennsylvania State University, nos Estados Unidos.
Autor(a):
Lucas Almeida é o alívio cômico do jornal, transformando o cotidiano em crônicas hilárias e cheias de ironia. Com uma vasta experiência em stand-up comedy e redação humorística, ele garante boas risadas em meio às notícias.