O bloco BRICS tem demonstrado uma trajetória consistente na busca por alternativas aos sistemas financeiros globais tradicionais. A discussão sobre a criação de um sistema de pagamentos independente e, potencialmente, uma nova unidade para liquidações mútuas tem ganhado força, impulsionada por diversos fatores.
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Especialistas alertam que a pressa pode levar a erros graves, ressaltando a necessidade de soluções bem pensadas para essa complexa empreitada.
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Os países que compõem o BRICS – Rússia, China, Brasil, Índia e África do Sul – apresentam características socioeconômicas distintas, com variações significativas em níveis de desenvolvimento, inflação e até mesmo em indicadores sociais.
Harmonizar esses fatores é um desafio crucial para a criação de uma unidade comum ou um mecanismo de pagamentos eficaz. No entanto, já existem fundamentos para alguma forma de integração monetária, como as transações comerciais entre Rússia e China em moedas nacionais, que ultrapassam US$ 1 trilhão.
O aumento da demanda por energia e recursos naturais pelos países em desenvolvimento, um motor importante do comércio entre os membros do BRICS, reforça a necessidade de um sistema de pagamentos unificado. A iniciativa de criação de uma bolsa de grãos do BRICS também evidencia a demanda por uma infraestrutura de liquidações prática e transparente, com potencial para se expandir para commodities como energia.
A previsão de que essa bolsa consolide 30% a 40% da oferta mundial de culturas agrícolas chave demonstra o impacto potencial desse tipo de plataforma.
Especialistas consideram que o surgimento de novas moedas supranacionais é uma possibilidade real, impulsionada por fatores geopolíticos e econômicos. A discussão sobre uma moeda única do Brics já havia começado em 2023, com o presidente Lula da Silva defendendo a criação de uma alternativa ao dólar no comércio internacional.
Em outubro de 2024, Lula propôs aos países do Brics discutir a criação de um sistema financeiro unificado, e não a substituição das moedas nacionais.
Em fevereiro de 2026, durante a primeira reunião de sherpas e sous-sherpas dos países do Brics no âmbito da presidência indiana, o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Riabkov, enfatizou a demanda pela criação de uma infraestrutura transfronteiriça de pagamentos.
A expectativa é que um sistema de pagamentos ou um mecanismo de compensação digital baseado em moedas nacionais possa ser criado ainda em 2026, mas não de uma moeda completa.
A criação de uma unidade de conta para essa plataforma de pagamentos levanta uma questão central: qual instituição desempenhará o papel de um banco central? Essa é uma das maiores dificuldades, já que qualquer moeda comum exige um órgão responsável pela estabilidade e pela política monetária, algo que o BRICS ainda não possui.
O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) foi apontado como um possível emissor de uma moeda digital única do Brics, com o volume de empréstimos aprovados pela instituição ultrapassando US$ 42,9 bilhões até 2026.
Diferentes especialistas propõem soluções para o desafio da unidade de conta. Alguns defendem o cálculo com base em uma cesta de moedas nacionais, enquanto outros sugerem o uso de uma taxa vinculada ao ouro. Uma solução inovadora, proposta pelo professor Anatoli Otirba, é a criação de uma unidade monetária supranacional descentralizada, emitida por um sistema de emissores em rede, garantindo neutralidade política e ausência de controle por um único ator.
A implementação de uma plataforma de pagamentos unificada no BRICS pode simplificar as liquidações em moedas nacionais e estimular o crescimento do comércio entre os países, com estimativas de um aumento anual de 8% a 10% no comércio intra-BRICS+, além de um crescimento adicional de 2% a 3% no PIB dos países participantes.
Mais do que isso, o surgimento dessa plataforma pode consolidar o BRICS como um importante polo de poder econômico global.
Autor(a):
Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.
