Há 62 anos, o Brasil vive sob o impacto de um regime autoritário que se estendeu por 21 anos. Esse período foi marcado por graves violações de direitos, repressão política, censura à imprensa e, infelizmente, pela perseguição, tortura e morte de opositores, muitos dos quais permanecem desaparecidos até hoje.
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Mesmo após a redemocratização, na década de 1980, o problema dos desaparecimentos forçados continua a ser uma questão complexa e dolorosa para o país.
O coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Edson Teles, destaca uma grande dificuldade: a ausência de um programa de Estado permanente para a busca e identificação de desaparecidos. “Não há um programa nacional, um programa fixo, uma institucionalidade para busca de desaparecidos e trabalho forense de identificação humana”, explica.
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Teles ressalta que, em outros países que investigaram esses casos, foi criado um sistema de políticas e práticas de Estado, garantindo estabilidade e independência das ações, independentemente das mudanças políticas.
Atualmente, pesquisadores do Caaf trabalham com 1.049 caixas de ossadas humanas encontradas na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, em 1990. Muitas dessas vítimas eram desaparecidos políticos e vítimas da ditadura militar. Em 2018, foram identificados Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, e em 2025, Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva.
Identificações anteriores ocorreram em 1992 (Frederico Eduardo Mayr) e 2005 (Flávio Carvalho Molina). No entanto, o trabalho do Caaf enfrenta desafios constantes, como a dependência de financiamento periódico, que, em alguns momentos, foi interrompido.
Edson Teles relata que, durante o governo Bolsonaro, o Grupo de Trabalho Perus foi extinto, o que dificultou o repasse de recursos. A Unifesp teve que arcar com os custos de manutenção dos restos mortais, devido à natureza do trabalho, mas a falta de financiamento impediu a realização de investigações para a identificação.
Em 2024, um novo Acordo de Cooperação Técnica foi firmado entre o CAAF e a Unifesp, com foco na retomada das análises das ossadas. Em 2023, o governo Lula retomou os diálogos e pode incluir o pagamento completo do acordo no orçamento para 2024.
O professor de arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Andres Zarankin, considera que o tema da ditadura militar ainda é um tabu no Brasil, com grupos que apoiaram o regime ainda detendo poder. Ele destaca que o Brasil e a América Latina são os países mais complexos em relação à memória histórica, devido à persistência desse poder político e econômico.
Zarankin e sua equipe trabalham no Grupo de Trabalho (GT) Memorial DOI-Codi, escavando no prédio do DOI-Codi em São Paulo, onde foram encontrados objetos e material orgânico associados à violência.
Andres Zarankin relata as dificuldades financeiras e burocráticas para a continuidade das pesquisas, mencionando que muitos membros da equipe trabalham de forma voluntária, investindo seu próprio dinheiro no projeto. Edson Teles ressalta a necessidade de uma política de Estado para a busca e identificação de restos mortais de vítimas ainda desaparecidas, incluindo os desaparecimentos forçados em pleno período democrático. “A gente está trabalhando aqui com a vala de Perus, mas tem outras centenas de corpos desaparecidos que não estão sendo buscados”, lembra.
Edson Teles enfatiza que o problema do desaparecimento forçado é uma violência de Estado que ainda persiste, especialmente contra corpos periféricos e negros. Ele destaca que a estrutura desse tipo de violência foi criada no Brasil nos anos 70 e continua funcionando até hoje.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80 mil pessoas desaparecem por ano, incluindo vítimas de desaparecimento forçado. A complexidade da situação exige uma abordagem abrangente e contínua, buscando garantir que as vítimas sejam identificadas e que a memória da ditadura seja preservada.
Autor(a):
Gabriel é economista e jornalista, trazendo análises claras sobre mercados financeiros, empreendedorismo e políticas econômicas. Sua habilidade de prever tendências e explicar dados complexos o torna referência para quem busca entender o mundo dos negócios.
