Arya FC reflete sobre identidade e bandeira em meio a controvérsias antes da Copa do Mundo
Em meio a um amistoso nos EUA, o Arya FC discute a complexa relação entre identidade cultural e política, especialmente com a proximidade da Copa do Mundo.
O escudo e a identidade cultural
O escudo do Arya Football Club exibe as cores vermelho, branco e verde, representativas da bandeira iraniana. Nader Adeli, capitão de 65 anos da equipe, levanta a camisa e sorri, brincando: “Somos iranianos! Somos arianos, certo?”. Todos os 11 jogadores em campo são iranianos ou iraniano-americanos.
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Em uma quarta-feira à noite em Moorpark, no Vale de San Fernando, Califórnia, o Arya enfrenta um time local em uma partida amistosa.
A menos de 80 quilômetros dali, no SoFi Stadium, em Inglewood, a seleção do Irã se prepara para sua estreia na Copa do Mundo nesta segunda-feira (15), em um contexto inédito. Pela primeira vez, um país-sede está em conflito com uma das seleções participantes.
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Apesar de um acordo de paz parecer próximo, a participação do Irã enfrenta desafios logísticos e simbólicos, devido a atrasos na emissão de vistos e restrições de viagem.
O dilema da bandeira
À medida que a estreia do Irã se aproxima, os jogadores do Arya FC refletem sobre a intersecção entre identidade cultural, esporte e política. Adeli menciona o dilema em torno do uniforme do clube, que busca homenagear a herança iraniana sem se posicionar na controvérsia sobre qual bandeira realmente representa o país.
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A bandeira oficial do Irã inclui o emblema da República Islâmica e a frase “Allahu Akbar” nas bordas.
Ramin Ghashghaei, zagueiro de 61 anos e advogado de imigração, expressa sua opinião: “Essa não é a minha bandeira. Para mim, isso é uma organização terrorista, ponto final.” Muitos iranianos nos Estados Unidos compartilham essa visão, preferindo a histórica bandeira do Leão e Sol, que foi utilizada até a Revolução Islâmica de 1979.
A FIFA, no entanto, proíbe a entrada de bandeiras políticas nos estádios, gerando indignação entre a diáspora iraniana.
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Divisões na comunidade iraniana
A controvérsia em torno da bandeira é apenas uma das várias divisões dentro da comunidade iraniana no exterior. Após os ataques aéreos que resultaram na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em fevereiro de 2026, muitos se reuniram em Westwood, Los Angeles, para celebrar.
Entre bandeiras do Leão e Sol, manifestantes expressaram gratidão ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Outros, no entanto, questionaram se a guerra realmente levaria a uma mudança de regime.
Com mais de 100 dias de conflito, a Copa do Mundo reacendeu essas discussões, mesmo após o anúncio de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã. Trump declarou que o bloqueio naval aos portos iranianos seria suspenso, mas os detalhes do acordo ainda não foram divulgados.
Perspectivas sobre a seleção iraniana
Para alguns membros da diáspora, a influência da República Islâmica no esporte é inegável. Ghashghaei decidiu boicotar a Copa, afirmando: “Eu amo futebol. O futebol faz parte da cultura persa.” Ele não pretende assistir à seleção nacional, pois acredita que a equipe não representa o verdadeiro Irã.
Adeli, embora critique a situação, não consegue se desvincular emocionalmente do Team Melli, como é conhecida a seleção iraniana.
O advogado iraniano-americano Omeed Askary, de 26 anos, traça um paralelo com a seleção dos Estados Unidos, afirmando que apoiar os atletas não significa apoiar o governo. “O Irã é uma ditadura teocrática, mas isso não significa que esses jogadores não sejam bons atletas”, diz Askary. “Uma vitória do Irã existia muito antes da República Islâmica e continuará existindo muito depois dela.”
Desafios da participação do Irã na Copa
A presença do Irã na Copa do Mundo foi marcada por dificuldades. De acordo com as regras da FIFA, 8% dos ingressos de cada partida devem ser destinados aos torcedores das seleções participantes. Contudo, a Federação Iraniana de Futebol anunciou que sua cota foi cancelada, impossibilitando a venda de ingressos para os torcedores da seleção nacional.
Além disso, a seleção iraniana, que deveria se basear em Tucson, Arizona, chegou a Tijuana, México, estabelecendo seu centro de treinamento ao sul da fronteira. Cada partida da fase de grupos exigirá uma travessia internacional, e os jogadores entrarão nos Estados Unidos apenas um dia antes da estreia, em uma tentativa de minimizar o tempo no país.
Reflexões sobre a guerra e o futebol
Adeli acredita que o desgaste causado pelas viagens e pela burocracia representa uma desvantagem esportiva para a equipe, que já enfrenta os impactos da guerra. Outros, como Ghashghaei, veem a situação de forma diferente, afirmando que Trump fez uma promessa ao povo iraniano e que a liberdade é esperada.
Kevan Harris, professor de sociologia da UCLA, observa que o momento reflete anos de polarização. Desde os protestos pela morte de Mahsa Amini, em 2022, muitos iranianos passaram por um intenso processo de mobilização política. A guerra intensificou essas divisões, mas Harris acredita que o esporte opera em uma dimensão diferente, onde as emoções podem superar as divisões políticas.
Enquanto o Irã se prepara para sua estreia na Copa do Mundo, a guerra pode ou não continuar, dependendo das negociações de paz. Adeli parece ter encontrado uma forma de conciliar essas contradições, afirmando: “No fim das contas, é hora de futebol.”