Alemanha Mobiliza Plano Estratégico para Preparação a Possível Conflito com a Rússia
A Alemanha tem intensificado seus esforços militares, buscando se preparar para um eventual conflito com a Rússia. Essa preparação se materializou em um plano estratégico abrangente, conhecido como OPLAN DEU, desenvolvido em sigilo por oficiais de alta patente na Base Julius Leber, em Berlim.
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O documento, que já está em sua segunda versão, visa reconstruir uma lógica de defesa, envolvendo o Estado, o setor privado e estruturas civis, similar ao período da Guerra Fria, mas adaptado às ameaças atuais, como sabotagem, fragilidade da infraestrutura e legislação inadequada para tempos de tensão.
O plano centraliza a possibilidade de que, em caso de ataque russo, até 800.000 militares alemães, norte-americanos e de outros aliados da Organização do Tratado do Atlântico-Norte (OTAN) consigam cruzar o país rumo ao leste. A geografia europeia, com os Alpes como barreira ao sul, torna o país um corredor inevitável de deslocamento.
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Para garantir a logística, o plano detalha rotas, portos, ferrovias e estradas, além de procedimentos de proteção de comboios.
Exercícios e Desafios Logísticos
A Rheinmetall, contratada para apoiar a logística da operação, montou em 14 dias um acampamento de campo para 500 soldados, com dormitórios, cozinhas, postos de combustível e vigilância por drones. No entanto, o terreno não suportou a concentração de veículos, e a área era fragmentada, exigindo transporte constante de militares.
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Esses desafios são incorporados em revisões sucessivas do OPLAN.
Obstáculos e Vulnerabilidades
A Alemanha desmontou parte de sua infraestrutura militarizada após a Guerra Fria. Trechos especiais de estradas que serviriam de pistas de pouso foram abandonados, e túneis e pontes construídos nas últimas décadas não comportam comboios pesados.
Segundo estimativas oficiais, 20% das autoestradas e mais de 25% das pontes precisam de reparos. Portos do Mar do Norte e do Báltico exigem investimentos de 15 bilhões de euros para garantir operações em caso de conflito. Gargalos logísticos são considerados segredo de Estado.
Incidentes e Implicações
Em fevereiro de 2024, um navio cargueiro atingiu uma ponte ferroviária no norte do país, interrompendo o acesso ao porto de Nordenham, então único terminal autorizado a lidar com cargas de munição enviadas à Ucrânia. Um mês depois, outra colisão destruiu a ponte provisória.
O fluxo precisou ser desviado para a Polônia. Embora não tenha havido indício de sabotagem, a interrupção expôs a fragilidade de pontos críticos.
O trabalho para colocar o país em posição defensiva começou logo após a de 2022, quando o chanceler Olaf Scholz anunciou um fundo de 100 bilhões de euros para reforçar as forças armadas e descreveu o momento como uma zeitenwende – 1 ponto de virada. Desde então, o comando territorial da Bundeswehr (as Forças Armadas da Alemanha) ampliou coordenação com hospitais, polícia, agências de emergência e operadoras de infraestrutura.
Em setembro, o exercício Red Storm Bravo simulou a chegada de 500 soldados da Otan no porto de Hamburgo. Uma série de imprevistos –drones não identificados, bloqueios de manifestantes e falhas de coordenação– atrasou o comboio, que avançou só 10 km em horas de operação.
Há ainda limitações legais. Drones militares, por exemplo, precisam de luzes de posição e não podem sobrevoar áreas urbanas, o que reduz a utilidade em cenários reais. Ataques recentes contra ferrovias, redes elétricas e estruturas sensíveis reforçam a avaliação de que a fronteira entre paz e conflito se tornou difusa.
“As ameaças são reais. Não estamos em guerra, mas já não vivemos em tempos de paz”, declarou o chanceler Friedrich Merz em setembro.
