Ailton Krenak causa impacto na UFRGS! Escritor indígena ministra Aula Magna e expõe desafios da relação homem-natureza. Reflexões sobre o futuro e a luta indígena ganham destaque
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) recebeu, nesta segunda-feira (9), o renomado escritor e líder indígena Ailton Krenak, que ministraria a Aula Magna inaugural de 2026. O evento, realizado no salão de atos da universidade, reuniu estudantes, professores e a comunidade em geral, marcando o início do ano acadêmico com uma discussão profunda sobre o futuro da humanidade e a relação entre o ser humano e a natureza.
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Antes da aula, Krenak compartilhou suas reflexões sobre a trajetória do movimento indígena no Brasil, destacando a importância de iniciativas como o programa da Rádio Universidade de São Paulo (USP), iniciado em 1985. A experiência, que o envolveu um estudante de jornalismo chamado William Bonner, ressaltou a necessidade de dar voz a perspectivas diferentes e de visibilizar as lutas indígenas.
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Ele enfatizou que, naquele período, a luta indígena ganhava força e importância, impulsionada pela comunicação e pela conscientização.
Krenak refletiu sobre a visão caricata que existia no Brasil sobre os povos indígenas, frequentemente retratados como habitantes isolados de regiões remotas, como o Xingu. Essa representação, segundo ele, ignorava a realidade da integração dos indígenas na vida brasileira e reforçava preconceitos históricos.
Ele argumentou que a circulação de indígenas em grandes centros urbanos, muitas vezes, contribuía para a perpetuação desses preconceitos, reforçando a ideia de que o lugar dos indígenas era a aldeia.
Nos últimos anos, Krenak observou uma mudança significativa no cenário, com um aumento expressivo no número de indígenas matriculados no ensino superior. Em 2026, estima-se que 55 mil pessoas indígenas estariam cursando mestrado, doutorado ou especializações no exterior, alterando profundamente a percepção da sociedade sobre a diversidade indígena.
Essa transformação, segundo ele, representava uma nova geração de líderes e intelectuais indígenas, comprometidos com a defesa dos direitos dos povos originários e com a promoção de um futuro mais justo e sustentável.
O escritor enfatizou a necessidade de repensar o modelo econômico atual, que se baseia na exploração desenfreada da natureza. Ele criticou a visão antropocêntrica que coloca a humanidade no centro da vida, ignorando a importância da reciprocidade entre o ser humano e o meio ambiente.
Krenak alertou para os riscos das crises climáticas, que afetam desproporcionalmente as populações marginalizadas, e defendeu a urgência de adotar novas formas de existência, que respeitem os limites do planeta.
Krenak abordou a questão das crises climáticas, como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, argumentando que a humanidade atravessa um momento crítico. Ele questionou a capacidade da linguagem de mudar o mundo, alertando para o risco de que a violência se torne o único instrumento de transformação.
Ele citou o pensador quilombola Nego Bispo, que afirmava: “a terra dá e a terra quer”, ressaltando a importância de reconhecer a demanda da terra por reciprocidade.
O escritor criticou o modelo urbano dominante, questionando a viabilidade das cidades atuais e a falta de planejamento urbano que considere as necessidades da vida em geral. Ele defendeu a criação de assentamentos humanos mais adequados, que respeitem a integridade dos rios e da paisagem.
Krenak enfatizou que, se os rios não são respeitados, eles acabam reagindo, e que a humanidade deve aprender a ouvir essa linguagem da natureza.
Krenak ressaltou a responsabilidade das universidades na construção de novos imaginários sobre o mundo. Ele questionou o modelo de disputa de narrativas sobre o mundo, defendendo que as instituições de ensino superior devem se comprometer com a ideia de devolver à terra parte daquilo que a gente tirou.
Ele também criticou a visão antropocêntrica que coloca a humanidade no centro da vida, alertando para os riscos da exploração desenfreada da natureza.
Ao final da coletiva, Krenak reiterou a importância de abandonar a lógica de uma economia voraz, que pode consumir tudo. Ele citou o pensador yanomami, que afirmava: “Os humanos comem floresta, comem rios, comem pedra, comem tudo que encontram pela frente”, ressaltando que essa descrição reflete o funcionamento da economia atual.
Ele argumentou que a humanidade deve repensar seu papel no planeta, buscando um equilíbrio entre o desenvolvimento e a preservação da natureza.
Autor(a):
Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.