Agência nuclear da ONU pede que órgão responsabilize Irã por sabotagem em inspeções
A agência nuclear da ONU pediu que o órgão responsável responsabilize o Irã por descumprir salvaguardas contra armas nucleares.
A agência de fiscalização nuclear da ONU pediu que o órgão responsável responsabilize o Irã por descumprir salvaguardas contra armas nucleares. O anúncio foi feito por autoridades diplomáticas na última quarta – feira (9.
O movimento representa o capítulo mais recente de uma disputa que já dura mais de uma década. Durante esse período, o Irã passou da conformidade para a sabotagem das inspeções. Entre as ações do país estão a desativação de câmeras de monitoramento e a realização de “revistas físicas excessivamente invasivas” em inspetores, segundo ex – funcionários, diplomatas e documentos da ONU analisados pela CNN.
Do acordo nuclear à escalada das tensões
O acordo nuclear de 2015, conhecido como JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global), foi assinado entre o Irã, os Estados Unidos e outros países após 20 meses de negociações intensas. O pacto estabeleceu limites rigorosos ao programa nuclear iraniano, especialmente no enriquecimento de urânio, e permitiu que a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) implementasse o esquema de monitoramento mais intrusivo do planeta, com lacres, câmeras, sensores e inspeções diárias.
Quando entrou em vigor, em janeiro de 2016, a agência certificou que os iranianos cumpriam os termos. Até meados de 2019, o Irã se manteve em conformidade, apesar de o presidente Donald Trump ter retirado os EUA do acordo em maio de 2018. A partir de 2019, porém, o cumprimento começou a se deteriorar.
Em julho daquele ano, inspetores relataram que o Irã havia acumulado urânio suficiente para ultrapassar o limite do JCPOA. No outono, Teerã retomou o enriquecimento com centrífugas avançadas em instalações proibidas.
Em 2020, o Irã impediu o acesso a dois locais suspeitos de atividades relacionadas a armas nucleares. A situação se agravou em dezembro daquele ano, quando o parlamento iraniano aprovou uma lei que reduziu drasticamente a cooperação com a AIEA, na sequência do assassinato de um importante cientista iraniano por Israel.
A lei também determinou a aceleração do programa nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio a 60% de pureza — um nível próximo ao necessário para material de grau militar.
Leia também
Sabotagem e expulsão de inspetores
Em meados de 2021, os iranianos desativaram câmeras de monitoramento em uma oficina de centrífugas em Karaj, destruindo uma delas. Cerca de um ano depois, em junho de 2022, exigiram que a agência removesse todos os equipamentos de monitoramento do JCPOA.
Membros das forças de segurança do Irã também intimidaram inspetores com “revistas físicas excessivamente invasivas”, segundo a agência.
Em janeiro de 2023, a AIEA descobriu um conjunto não declarado de centrífugas na instalação nuclear de Fordow que enriquecia urânio a até 83,7% de pureza. A descoberta foi feita por um inspetor russo experiente, que notou uma mudança sutil na tubulação.
Meses depois, o Irã expulsou esse inspetor e outros especialistas da AIEA. Rafael Grossi, chefe da agência, classificou a expulsão como um “golpe muito sério” na capacidade de monitoramento.
A relação continuou a se deteriorar, com trocas de acusações de espionagem. Em junho de 2025, a AIEA aprovou uma resolução declarando que o Irã violava seus compromissos de não proliferação. Israel lançou ataques contra o Irã no dia seguinte, e os EUA bombardearam três instalações nucleares estratégicas — em Fordow, Natanz e Isfahan — menos de duas semanas depois.
O que vem a seguir para o programa nuclear iraniano
Desde fevereiro de 2026, quando os EUA e Israel iniciaram sua campanha aérea contra o Irã, a AIEA não consegue visitar nenhuma instalação nuclear iraniana, exceto a usina de Bushehr. Os inspetores também não acessaram as instalações bombardeadas em junho de 2025.
A falta de acesso agrava a interrupção do monitoramento sobre a produção e movimentação de centrífugas, que começou no início de 2021.
Autoridades da AIEA afirmam que a interrupção quebrou a “continuidade de conhecimento” sobre o urânio e as centrífugas do Irã. Isso significa que a agência não pode atestar a situação, quantidade ou localização desses itens. Restabelecer essa base de monitoramento, segundo especialistas, é uma tarefa monumental.
Eric Brewer, ex – diretor de contraproliferação do Conselho de Segurança Nacional, disse à CNN que “a AIEA parte de um déficit enorme no que diz respeito a compreender a situação real no Irã”.
Caberá ao Conselho de Segurança da ONU determinar se o Irã enfrentará novas consequências. Após um relatório semelhante em 2006, o órgão aprovou sanções econômicas devastadoras. No entanto, com os EUA já adotando medidas militares e econômicas contra o Irã, não está claro qual seria o impacto de ações adicionais, nem se eventuais resoluções conseguiriam superar o veto de Rússia e China.